Autónoma Academy

Arquivos de Arquitetura: preservar projetos, compreender cidades, construir o futuro

Há muito mais num arquivo de arquitetura do que desenhos e plantas

Quando pensamos em arquitetura, tendemos a centrar a nossa atenção na obra construída. Admiramos edifícios, apreciamos soluções estéticas, analisamos a integração urbana ou reconhecemos o valor patrimonial de determinados conjuntos arquitetónicos. Raramente pensamos no percurso que antecede a construção ou na extraordinária quantidade de informação produzida ao longo desse processo. É precisamente nesse universo que os arquivos de arquitetura assumem uma importância singular.

Cada projeto arquitetónico é o resultado de um processo complexo de criação, decisão, experimentação e diálogo entre arquitetos, engenheiros, clientes, entidades públicas e construtores. Os desenhos, as plantas, os alçados, os cortes, as maquetas, os cadernos de encargos, a correspondência, as fotografias, os ficheiros digitais e toda a documentação produzida durante esse percurso constituem um património documental de enorme valor científico, técnico, jurídico, cultural e histórico.

Preservar esta documentação significa preservar a memória da arquitetura, mas também da evolução das cidades, das técnicas construtivas, das políticas públicas e das próprias transformações da sociedade.

Um património que continua pouco conhecido

Ao longo das últimas décadas, os arquivos de arquitetura conquistaram um reconhecimento crescente em diversos países, acompanhando a valorização da arquitetura enquanto património cultural. Instituições públicas, universidades, fundações, museus, ordens profissionais e gabinetes de arquitetura desenvolveram políticas específicas para preservar e disponibilizar os seus arquivos, reconhecendo neles uma fonte indispensável para a investigação, a conservação do património edificado e a produção de novo conhecimento.

Em Portugal, apesar dos progressos alcançados, continua a existir um longo caminho a percorrer. Muitos arquivos permanecem dispersos, insuficientemente organizados ou sujeitos a riscos decorrentes da degradação física, da obsolescência tecnológica ou da ausência de estratégias de preservação digital. Em muitos casos, o desaparecimento de um gabinete de arquitetura ou a reforma do seu titular coloca em risco muitos anos de produção documental cuja importância ultrapassa largamente o interesse individual do seu produtor.

Quando um arquivo de arquitetura se perde, não desaparecem apenas desenhos ou projetos. Perde-se a possibilidade de compreender como determinadas opções foram tomadas, como evoluíram os processos criativos ou como determinadas obras contribuíram para transformar o território.

A era digital aumentou a complexidade

Se durante muito tempo o principal desafio consistiu na preservação de documentos em suporte papel, hoje a realidade é substancialmente diferente.

Grande parte da documentação arquitetónica nasce exclusivamente em ambiente digital. Modelos tridimensionais, desenhos produzidos em sistemas CAD, modelos BIM, imagens de alta resolução, bases de dados e inúmeras versões sucessivas dos projetos passaram a integrar os arquivos contemporâneos.

Esta transformação trouxe oportunidades extraordinárias para a reutilização da informação, mas também novos desafios relacionados com formatos proprietários, autenticidade, interoperabilidade, preservação a longo prazo e acesso futuro.

Ao contrário do que por vezes se pensa, a digitalização não resolve, por si só, os problemas da preservação documental. Pelo contrário, em muitos casos, cria novos desafios que exigem conhecimentos especializados e uma abordagem interdisciplinar.

É neste contexto que a Arquivística, a Ciência da Informação, a Arquitetura e as tecnologias digitais se cruzam de forma particularmente intensa.

Muito mais do que conservar documentos

Existe ainda a ideia de que os arquivos de arquitetura servem exclusivamente investigadores ou historiadores da arquitetura. Essa visão tornou-se claramente insuficiente. Hoje, estes arquivos apoiam projetos de reabilitação urbana, fundamentam intervenções em património classificado, permitem estudar a evolução das cidades, documentam processos construtivos, esclarecem questões jurídicas, apoiam a investigação científica e constituem recursos fundamentais para a divulgação do património arquitetónico junto da sociedade.

São igualmente instrumentos essenciais para arquitetos, engenheiros, urbanistas, conservadores-restauradores, museólogos, arquivistas e gestores da informação. A riqueza destes arquivos reside precisamente na diversidade das utilizações que permitem e na capacidade de estabelecer pontes entre diferentes áreas do conhecimento.

Novos desafios exigem novos profissionais

Ao longo do meu percurso profissional, com mais de três décadas, mas também como Presidente da Secção de Arquivos de Arquitetura do Conselho Internacional de Arquivos, e tendo concluído recentemente um Pós-Doutoramentos em Arquitetura e Urbanismo, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Brasília, tenho acompanhado a crescente valorização dos arquivos especializados e, em particular, dos arquivos de arquitetura. Essa evolução tornou igualmente evidente uma realidade: a especialização tornou-se indispensável.

A gestão destes arquivos exige competências que vão muito além das metodologias arquivísticas tradicionais. É necessário compreender os processos de produção documental próprios da arquitetura, conhecer a evolução das técnicas de representação gráfica, dominar princípios de preservação digital, interpretar contextos institucionais complexos e responder às exigências de utilizadores cada vez mais diversificados.

Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial, os sistemas de descrição automatizada, as tecnologias de reconhecimento de imagem e os ambientes colaborativos começam a abrir novas possibilidades para o tratamento e a difusão deste património documental.

Nenhuma destas ferramentas substitui o conhecimento especializado. Pelo contrário, tornam ainda mais importante a existência de profissionais capazes de compreender criticamente os documentos, garantir a sua autenticidade e preservar o contexto que lhes confere significado.

Formar para responder a uma necessidade real

Foi precisamente desta constatação que nasceu a Pós-Graduação em Arquivos de Arquitetura da Autónoma Academy.

Mais do que criar uma nova oferta formativa, o objetivo foi responder a uma necessidade que se tornou evidente nos últimos anos: a escassez de formação especializada numa área cuja relevância continua a crescer, tanto em Portugal como internacionalmente.

A formação foi concebida para reunir especialistas provenientes de diferentes domínios do conhecimento, promovendo uma abordagem interdisciplinar que articula Arquivística, Ciência da Informação, Arquitetura, património, tecnologias digitais e preservação documental.

Destina-se a profissionais que trabalham em arquivos, gabinetes de arquitetura, fundações, universidades, museus, administrações públicas, centros de documentação e outras organizações responsáveis pela gestão deste património, mas também a arquitetos e investigadores que pretendam aprofundar os seus conhecimentos nesta área altamente especializada.

Mais do que transmitir conteúdos técnicos, pretende desenvolver uma visão integrada sobre os desafios presentes e futuros dos arquivos de arquitetura, conciliando rigor científico, aplicação prática e reflexão crítica.

Um património que importa preservar

Os arquivos de arquitetura documentam muito mais do que edifícios. Documentam ideias, processos criativos, decisões técnicas, transformações urbanas e a forma como diferentes gerações imaginaram e construíram os espaços que hoje habitamos.

Preservá-los é preservar uma parte essencial da memória coletiva e garantir que esse conhecimento permanece disponível para a investigação, para a inovação e para as futuras gerações.

Num momento em que as cidades enfrentam profundas transformações e em que a tecnologia redefine continuamente a forma como produzimos e utilizamos informação, investir na formação especializada nesta área deixou de ser apenas uma oportunidade de valorização profissional. Tornou-se uma necessidade para todos aqueles que pretendem contribuir para uma gestão mais qualificada, sustentável e inteligente do património documental da arquitetura.

É com essa convicção que a Autónoma Academy promove a Pós-Graduação em Arquivos de Arquitetura: uma formação concebida para preparar profissionais capazes de responder aos desafios de um domínio que é, simultaneamente, um dos mais especializados e um dos mais promissores da Arquivística contemporânea.