
O Dia Mundial da Saúde Mental é uma oportunidade para refletir sobre uma realidade que, apesar dos avanços, continua a permanecer demasiadas vezes invisível: a saúde mental durante a gravidez e no primeiro ano após o nascimento de um filho.
A maternidade e a parentalidade são frequentemente associadas à felicidade, plenitude e realização. Contudo, a evidência científica mostra-nos que este é também um período de particular vulnerabilidade emocional.
A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 10% das mulheres durante a gravidez e 13% das mulheres após o parto desenvolvem uma perturbação mental, principalmente depressão e ansiedade. Em países de baixo e médio rendimento, estes valores podem ultrapassar os 15% na gravidez e os 20% após o parto.
Sabemos hoje que estas perturbações não afetam apenas a mulher. Têm impacto na vinculação precoce, no desenvolvimento da criança, na relação conjugal, no funcionamento familiar e nos custos sociais e económicos para os sistemas de saúde. A OMS tem sido clara ao afirmar que apoiar a saúde mental perinatal é um investimento na saúde das futuras gerações.
Nos últimos anos assistimos a uma transformação importante da forma como a saúde mental perinatal é entendida.
Deixámos de falar apenas de depressão pós-parto e passámos a reconhecer um conjunto mais amplo de condições, incluindo perturbações de ansiedade, perturbação obsessivo-compulsiva, stress pós-traumático relacionado com o parto, perturbações bipolares, psicose puerperal e sofrimento associado à infertilidade, perda gestacional e luto perinatal.
As principais entidades internacionais, como a OMS, o NICE, o COPE (Austrália) e a Maternal Mental Health Alliance (Reino Unido), convergem numa ideia central: a identificação precoce e a intervenção atempada fazem a diferença.
Em vários países europeus verificou-se um reforço significativo dos serviços especializados de saúde mental perinatal, da formação de profissionais e dos programas de rastreio.
O Reino Unido é frequentemente apontado como uma referência internacional, com investimento sustentado em equipas comunitárias especializadas, unidades mãe-bebé e percursos assistenciais integrados. A orientação do NICE enfatiza a necessidade de rastrear, reconhecer e tratar precocemente os problemas de saúde mental durante a gravidez e até um ano após o parto.
Contudo, a realidade europeia continua heterogénea. O acesso aos cuidados especializados depende frequentemente da região onde a mulher vive, revelando desigualdades que permanecem um desafio para os sistemas de saúde.
Portugal tem dado passos importantes.
Nos últimos anos assistimos a uma crescente sensibilização dos profissionais e das instituições para a importância da saúde mental perinatal. Foram criadas consultas especializadas, desenvolvidos projetos de investigação, fortalecidas redes de referenciação e aumentada a oferta formativa nesta área, como a Pós-Graduação em Saúde Mental Perinatal.
Contudo, persistem desafios relevantes:
A realidade clínica mostra-nos diariamente que muitas mulheres continuam a chegar aos serviços quando o sofrimento já está instalado há demasiado tempo.
A próxima década deverá ser marcada por uma mudança de paradigma.
Mais do que responder à doença, precisamos de promover saúde mental desde o início da gravidez, ou mesmo antes dela.
Tal implica:
A OMS recomenda precisamente a integração da saúde mental nos serviços maternos e infantis como elemento central dos cuidados de saúde.
A saúde mental perinatal não é uma questão exclusiva da mulher, dos profissionais de saúde mental ou das maternidades. É uma responsabilidade coletiva.
Quando cuidamos da saúde mental de uma grávida ou de uma mãe recente, estamos simultaneamente a cuidar de uma criança, de uma família e de uma comunidade inteira.
Neste Dia Mundial da Saúde Mental, importa recordar que a saúde mental perinatal não pode continuar a ser vista como uma área complementar dos cuidados. É uma dimensão essencial da saúde materna e infantil.
O caminho percorrido merece reconhecimento. Mas os dados internacionais e a realidade clínica dizem-nos que ainda há muito por fazer. O desafio para os próximos anos não é apenas tratar melhor. É identificar mais cedo, prevenir mais eficazmente e garantir que nenhuma mulher enfrenta sozinha o sofrimento psicossocial associado à transição para a maternidade.
E até porque… não existe saúde materna sem saúde mental.
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