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Autónoma Academy

Da capacidade instalada à diferenciação de competências: o próximo ciclo da hospitalização domiciliária em Portugal

Carla Santos e Liliana Santos·27 agosto de 2026·9 min leitura
Enfermeira de farda azul sentada ao lado de uma senhora idosa, em casa, com a mão pousada no ombro dela — ambas a sorrir

O envelhecimento demográfico, a multimorbilidade e a pressão crescente sobre o internamento convencional estão a deslocar o centro de gravidade dos cuidados de saúde para a comunidade. Neste movimento, a hospitalização domiciliária (HD) afirmou-se como uma das respostas mais consequentes das últimas décadas.

Uma década depois do primeiro internamento em casa, em 2015, as equipas construíram, com competência técnica e resultados demonstrados, um modelo que deixou de ser experimental para se tornar estrutural no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Esse percurso é, antes de mais, um mérito dos profissionais que o edificaram.

A questão que hoje se coloca não é, por isso, de suficiência das equipas atuais, é de sustentabilidade da fase seguinte. À medida que se transfere para o domicílio cuidados de complexidade crescente, e à medida que a resposta se distribui por vários contextos da comunidade, eleva-se a exigência sobre a diferenciação das competências e sobre a articulação entre serviços.

Este artigo propõe uma leitura desse próximo ciclo: o que a evidência já demonstra, para onde caminha a complexidade dos cuidados, e por que razão a diferenciação profissional se torna o fator crítico da próxima etapa.

Um modelo consolidado

A hospitalização domiciliária assegura cuidados com diferenciação, complexidade e intensidade de nível hospitalar, prestados no domicílio, por um período limitado e mediante o consentimento do doente e da família. Não é uma modalidade menor do internamento. É internamento hospitalar, executado noutro cenário.

O enquadramento normativo assenta, desde 2018, na Estratégia Nacional de Implementação das UHD (Despacho n.º 9323-A/2018) e na norma da Direção-Geral da Saúde sobre HD no adulto (Norma n.º 020/2018). Mais recentemente, o Despacho n.º 5067/2025 designou a coordenação nacional, alargou a resposta a todos os hospitais do SNS e promoveu a organização das equipas em Centros de Responsabilidade Integrado (CRI).

Em 2025, a hospitalização domiciliária completou dez anos e alcançou cobertura de todos os hospitais do SNS no continente, bem como na Madeira e nos Açores, num total de 43 unidades. Em cada dia estão, em média, cerca de 420 doentes internados no domicílio, o equivalente a um hospital de média dimensão. Só no primeiro semestre de 2025 foram admitidos 6.836 novos doentes, segundo dados da Direção Executiva do SNS.

Os indicadores anuais consolidados mais recentes, relativos a 2024, dão a medida da escala alcançada: 366 camas de capacidade instalada, 28.103 utentes avaliados e cerca de 11.500 doentes internados no domicílio, com uma demora média de 9,3 dias e mais de 107 mil dias de internamento convencional evitados.

Estes valores sustentam uma proposta de valor consistente: alívio da pressão hospitalar, recuperação em ambiente familiar, menor risco de infeções associadas aos cuidados de saúde e ganhos de eficiência para o sistema.

Segurança e eficiência: o que diz a evidência

A expansão de qualquer modelo assistencial só é legítima se a segurança clínica estiver assegurada. Em Portugal, essa evidência começa a consolidar-se de forma robusta.

O estudo de Azevedo et al. (2024), publicado na Acta Médica Portuguesa, analisou 401 doentes em hospitais do grupo CUF, comparando hospitalização domiciliária e internamento convencional. Não encontrou diferenças estatisticamente significativas nas escalas de Barthel, Braden e Morse entre a admissão e a alta, em qualquer dos modelos.

O tempo de internamento também não diferiu de forma significativa, com exceção das doenças infeciosas, tendencialmente mais prolongadas no domicílio. Quanto à mortalidade, os autores associaram-na sobretudo ao risco intrínseco à admissão, ou seja, à gravidade e às comorbilidades do doente, e não ao local onde o cuidado é prestado.

Este é um dado com tradução direta na prática. Confirma que, com seleção criteriosa, o domicílio mantém a estabilidade clínica e funcional de doentes agudos, reduzindo simultaneamente a exposição à flora multirresistente do ambiente hospitalar.

A leitura a nível nacional acompanha esta evidência. Os dados de 2025 da Direção Executiva do SNS apontam uma taxa de mortalidade de 1,7%, correspondente a óbitos expectáveis face à gravidade clínica dos doentes admitidos.

Do ponto de vista económico, a dissertação de Silva (2024), da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, concluiu que a HD apresenta, em média, melhores resultados globais do que o internamento convencional. Ressalva, contudo, que essa vantagem depende de escala adequada e de otimização logística, sem as quais as diferenças de custo se tornam marginais.

A literatura internacional corrobora esta direção. Coortes de grande dimensão, como a análise de beneficiários Medicare nos Estados Unidos e o estudo DOMICON em Espanha, associam o modelo hospital at home a resultados clínicos equivalentes ou superiores aos do internamento convencional. A Organização Mundial de Saúde recomenda a HD como estratégia de resposta ao envelhecimento e à cronicidade.

Transição digital: telemonitorização e alargamento da elegibilidade

A maturação da HD é indissociável da transição digital em saúde. A monitorização remota de doentes permite vigiar sinais vitais e parâmetros biomédicos de forma contínua, antecipando a descompensação clínica antes que se converta em emergência.

Oxímetros, dispositivos de eletrocardiografia contínua, bombas de perfusão inteligentes e sistemas de oxigenoterapia monitorizados à distância transferem para o domicílio uma vigilância que, até há pouco, exigia presença hospitalar permanente.

O efeito é duplo. Aumenta a segurança e, ao mesmo tempo, alarga a elegibilidade a doentes de maior complexidade, que anteriormente ficariam excluídos desta resposta.

Esta digitalização não substitui o juízo clínico nem a presença da equipa. Exige, aliás, investimento em literacia em saúde do doente e do cuidador informal, para que a tecnologia seja um facilitador e não uma barreira acrescida.

Do hospital isolado ao ecossistema de proximidade

A hospitalização domiciliária não opera isolada. Integra-se, ou deveria integrar-se, num ecossistema de cuidados de proximidade que inclui os cuidados de saúde primários (CSP), as equipas de cuidados continuados integrados (ECCI), as equipas de gestão e suporte a doentes crónicos complexos, as estruturas residenciais para pessoas idosas (ERPI) e os serviços de apoio domiciliário diferenciados.

O valor deste ecossistema não reside em cada peça isolada, mas na fluidez das transições entre elas. Um doente pode transitar da UHD para uma ECCI, ou ser acompanhado em ERPI com suporte diferenciado, sem ruturas na continuidade dos cuidados.

É aqui que se revelam algumas das fragilidades atuais. Trabalhos apresentados em encontros científicos da especialidade mostram que uma parte significativa dos doentes elegíveis não é referenciada em tempo útil, e o acesso mantém assimetrias regionais.

Estas lacunas são muitas vezes lidas como problemas de capacidade. São-no em parte, mas são sobretudo desafios de articulação e de competências partilhadas entre equipas de contextos distintos. Gerir transições de forma segura é, cada vez mais, uma função clínica e de gestão de caso, e não apenas administrativa.

A competência como fator crítico

Chegados a este ponto, o constrangimento da próxima fase torna-se claro. Não é a capacidade instalada, que cresceu de forma notável. É a diferenciação das competências capaz de acompanhar o aumento da complexidade dos cuidados.

Levar para o domicílio a administração de terapêutica oncológica, o suporte transfusional e hemoderivados, a nutrição parentérica ou a gestão de acessos venosos avançados eleva a fasquia da preparação exigida. São procedimentos executados, com frequência, de forma autónoma e fora do ambiente controlado do hospital.

Emerge, neste contexto, o enfermeiro gestor de caso na comunidade. Não é apenas quem executa o procedimento. É quem coordena o plano individual de cuidados, articula os vários intervenientes, antecipa complicações e assume o doente na globalidade do seu contexto de vida.

Este perfil exige competências em decisão clínica autónoma, liderança, gestão de recursos, ética clínica e utilização de tecnologias de saúde digital. Não se improvisa, nem se adquire apenas por acumulação de experiência. Constrói-se com formação avançada e treino deliberado.

A simulação clínica avançada assume aqui um papel decisivo. Permite treinar procedimentos de risco de forma repetida, em ambiente seguro e supervisionado, antes da execução junto do doente real. É o que separa aprender à custa do erro de chegar ao domicílio já preparado.

Importa sublinhar um ponto essencial. Diferenciar competências não significa suprir uma incompetência. Significa acompanhar, com formação estruturada, a elevação da complexidade que o próprio êxito do modelo trouxe. É também uma questão de equidade, porque só equipas diferenciadas asseguram a mesma qualidade de cuidados em todo o território.

Conclusão

A hospitalização domiciliária já provou o seu valor clínico, económico e humano. O desafio da próxima década não está em demonstrar que funciona, mas em garantir que a complexidade crescente que leva a casa é acompanhada por profissionais e equipas cada vez mais diferenciados e mais bem articulados entre si.

Investir nas pessoas, e não apenas na capacidade instalada, é o que determinará se o hospital na comunidade cumpre a sua promessa com a mesma segurança do internamento convencional.

Aos profissionais e às organizações que pretendem liderar este ciclo, o caminho assenta em três compromissos indissociáveis: a prática baseada na evidência, a articulação efetiva entre os vários contextos de cuidados e a formação avançada. É neste último ponto que a diferenciação se joga, e é para ele que deixamos um convite à reflexão e à ação.

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Referências principais

  • Azevedo PC, Rei C, Grande R, et al. Assessment of the Impact of Home-Based Hospitalization on Health Outcomes: An Observational Study. Acta Médica Portuguesa. 2024; 37(6). DOI 10.20344/amp.20474
  • Silva PMP. Análise económica e de eficiência da Hospitalização Domiciliária e do Internamento Hospitalar. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Economia da Universidade do Porto, 2024.
  • Despacho n.º 5067/2025, de 30 de abril. Diário da República, 2.ª série, n.º 83.
  • Norma n.º 020/2018, de 20 de dezembro. Direção-Geral da Saúde. Hospitalização Domiciliária no adulto.
  • Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Portal de Benchmarking das Unidades de Hospitalização Domiciliária, dados de 2024.
  • Direção Executiva do SNS. Indicadores de atividade da Hospitalização Domiciliária, 2025.