
A transição energética está a mudar profundamente a forma como produzimos, distribuímos e utilizamos energia. No setor dos transportes, a eletrificação assume um papel central na redução da dependência dos combustíveis fósseis e na descarbonização da economia. Mas a verdadeira transformação da mobilidade elétrica poderá estar para além da substituição do motor de combustão por um motor elétrico.
O veículo elétrico pode deixar de ser apenas um consumidor de energia para passar a ser um recurso do próprio sistema energético.
À medida que aumenta a produção de eletricidade de origem renovável, cresce também o desafio de fazer coincidir a produção com o consumo. Existem períodos em que há excesso de energia solar ou eólica e outros em que a procura aumenta significativamente. Neste contexto, milhões de veículos elétricos estacionados durante várias horas por dia representam uma capacidade de armazenamento distribuído que pode ser aproveitada.
É aqui que entram o carregamento inteligente, o V1G e o V2G.
Com o V1G, o carregamento pode ser ajustado em função das necessidades da rede, dos preços da eletricidade ou da disponibilidade de energia renovável. Com o V2G (Vehicle-to-Grid), a relação torna-se bidirecional: o veículo pode não só receber energia da rede, mas também devolver eletricidade quando esta é necessária.
A questão deixa, assim, de ser apenas “como carregar milhões de veículos elétricos?” e passa a ser “como utilizar de forma inteligente a capacidade de flexibilidade que esses veículos representam?”
Esta mudança de perspetiva é particularmente relevante para Portugal. A investigação recente sobre o sistema energético português tem vindo a demonstrar o potencial do smart charging para reduzir necessidades de armazenamento e de geração de backup, contribuindo simultaneamente para a integração de energias renováveis e para a redução dos custos do sistema.
Mas existe uma questão igualmente importante: será necessário transformar todos os veículos elétricos em baterias da rede?
A investigação mais recente sugere que não. Uma participação estratégica de veículos com carregamento bidirecional poderá já gerar benefícios significativos para o sistema. O desafio passa, por isso, não apenas por desenvolver a tecnologia, mas por criar as condições para que proprietários de veículos, operadores de carregamento, empresas de energia e gestores de redes tenham interesse em participar.
O futuro da mobilidade elétrica poderá não estar apenas em ter mais veículos elétricos, mas em conseguir transformar uma parte dessas baterias num recurso de flexibilidade para o sistema energético.
Esta transformação abre novas questões económicas e regulatórias. Como remunerar um utilizador que disponibiliza a bateria do seu veículo à rede? Como refletir essa flexibilidade nas tarifas de eletricidade? Quem gere essa energia? Como garantir que a utilização da bateria não prejudica as necessidades de mobilidade do proprietário? E como assegurar interoperabilidade entre veículos, carregadores, edifícios e redes?
São questões que mostram que a mobilidade elétrica deixou de ser exclusivamente um tema automóvel.
É simultaneamente um tema de energia, redes, armazenamento, dados, economia, regulação e planeamento urbano.
Para os profissionais que trabalham nesta área, esta mudança exige novas competências e uma visão integrada. Compreender a tecnologia dos veículos e das infraestruturas de carregamento é importante, mas já não é suficiente. É necessário compreender também a operação das redes elétricas, a integração das renováveis, a flexibilidade energética, os modelos V1G e V2G, os mercados e tarifas, os modelos de negócio, a regulação e o papel dos dados e da digitalização.
É precisamente nesta interseção entre mobilidade e energia que se posiciona a Especialização em Mobilidade Elétrica e Redes Energéticas, orientada para os desafios da transição energética nos horizontes de 2030 e 2050.
Porque a mobilidade do futuro não será apenas elétrica.
Será inteligente, flexível, conectada e integrada no sistema energético.