Preservar já não basta. É preciso demonstrar relevância.
Se perguntarmos hoje para que serve um arquivo ou uma biblioteca, a resposta mais comum continuará a centrar-se na preservação da memória, na conservação de documentos ou na disponibilização de informação. Embora correta, esta visão está longe de traduzir a realidade destas instituições no século XXI.
Ao longo de mais de três décadas do meu percurso profissional, tenho tido a oportunidade de contactar com arquivos e bibliotecas de diferentes dimensões e contextos, em Portugal e no estrangeiro. Apesar das suas diferenças, há uma constatação que se repete: as instituições que hoje mais se afirmam são aquelas que compreenderam que preservar património continua a ser essencial, mas deixou de ser suficiente. A verdadeira diferença reside na capacidade de transformar esse património em conhecimento, participação e desenvolvimento cultural.
Não significa abandonar a missão tradicional dos arquivos e das bibliotecas. Significa, antes, concretizá-la de forma mais ampla, aproximando as instituições das comunidades que servem.
O maior desafio não é tecnológico. É social.
Vivemos num tempo em que nunca foi tão fácil produzir, difundir e consumir informação. Simultaneamente, nunca foi tão difícil distinguir informação rigorosa de desinformação, compreender o contexto em que os documentos foram produzidos ou garantir a sua autenticidade.
É precisamente neste cenário que os arquivos e as bibliotecas reforçam a sua importância. São instituições que preservam evidências, organizam conhecimento, asseguram a memória coletiva e promovem uma relação crítica com a informação. A sua missão tornou-se, por isso, ainda mais relevante.
Contudo, essa relevância não decorre automaticamente da existência de coleções ou fundos documentais de elevado valor histórico. É necessário que a sociedade conheça, utilize e reconheça esse património.
É aqui que reside um dos grandes desafios atuais.
Comunicar não é divulgar
Durante muitos anos, a promoção cultural foi entendida como uma atividade complementar, frequentemente limitada à organização ocasional de exposições ou comemorações.
Essa realidade alterou-se profundamente. Hoje encontramos arquivos que desenvolvem projetos educativos permanentes com escolas, bibliotecas que trabalham regularmente com públicos seniores, instituições que recorrem às redes sociais para divulgar documentos históricos, iniciativas de ciência cidadã que envolvem comunidades locais na identificação e descrição de património documental e projetos digitais que tornam acessíveis milhões de documentos a utilizadores de todo o mundo.
Estas iniciativas não representam um desvio da missão institucional. Representam, precisamente, uma nova forma de a concretizar.
Não tenho qualquer dúvida que promover deixou de significar apenas divulgar atividades. Significa criar relações duradouras entre as instituições e os seus públicos, compreender necessidades, construir confiança e demonstrar, através de resultados concretos, a utilidade social dos serviços prestados.
Ainda persistem equívocos
Apesar desta evolução, continuam a existir organizações onde a promoção cultural e educativa permanece dependente da disponibilidade de alguns profissionais ou da existência de financiamento pontual.
Na minha perspetiva, trata-se de uma visão que importa ultrapassar. A promoção e dinamização cultural não pode ser entendida como um complemento da atividade técnica. Deve integrar a estratégia institucional e participar na definição dos objetivos das organizações.
Quando uma atividade educativa, uma exposição, um roteiro patrimonial ou um projeto de participação comunitária são planeados com objetivos claros e avaliados pelos seus resultados, deixam de ser acontecimentos isolados. Passam a constituir instrumentos de valorização da informação, do património e da própria instituição.
A transformação digital trouxe novas responsabilidades
Nos últimos anos, a transformação digital alterou profundamente a forma como produzimos, organizamos e utilizamos informação. Mais recentemente, a Inteligência Artificial veio acrescentar novas possibilidades, mas também novas exigências.
Automatizar processos ou utilizar ferramentas inteligentes não elimina a necessidade de profissionais qualificados. Pelo contrário. Num contexto em que algoritmos produzem conteúdos, organizam informação e apoiam decisões, torna-se ainda mais importante garantir autenticidade, contexto, preservação e fiabilidade. Estas continuam a ser responsabilidades humanas.
A tecnologia evolui rapidamente. Os princípios fundamentais da Ciência da Informação permanecem. É por isso que os profissionais precisam hoje de competências muito mais diversificadas do que aquelas que eram suficientes há apenas uma ou duas décadas.
Ao domínio técnico juntam-se conhecimentos relacionados com comunicação, mediação cultural, planeamento estratégico, marketing, gestão de projetos, financiamento, avaliação de impacto, ferramentas digitais e Inteligência Artificial. Não porque estas áreas substituam os fundamentos da profissão, mas porque permitem aplicá-los de forma mais eficaz às necessidades contemporâneas.
Formar profissionais para uma nova realidade
Foi precisamente desta constatação que nasceu a Pós-Graduação em Promoção e Dinamização Cultural e Educativa de Arquivos e Bibliotecas da Autónoma Academy.
Ao coordenar esta formação, uma das preocupações centrais nunca foi criar mais um curso na área da Ciência da Informação. O objetivo consistiu em construir uma resposta para necessidades que fui identificando ao longo dos anos, através do contacto permanente com profissionais, instituições e estudantes.
Pretendeu-se reunir docentes que conhecem a realidade dos arquivos, das bibliotecas e de outras organizações culturais, conciliando investigação científica, experiência profissional e uma forte orientação para a aplicação prática dos conhecimentos.
O plano curricular reflete essa filosofia. São abordadas áreas como políticas culturais, serviços educativos, comunicação, marketing, financiamento, ferramentas digitais, Inteligência Artificial aplicada aos serviços de informação, gestão de redes sociais e avaliação de projetos, sempre numa perspetiva integrada e orientada para os desafios que as organizações enfrentam atualmente.
Mais do que transmitir conteúdos, pretende-se desenvolver capacidade crítica, visão estratégica e competências de liderança.
Aprender com quem vive a realidade das instituições
Ao longo das diferentes edições, uma das maiores riquezas da pós-graduação tem sido a diversidade dos participantes.
Encontram-se profissionais de arquivos, bibliotecas, museus, centros de documentação, autarquias, universidades, escolas e outras organizações culturais, com as mais diversas formações, provenientes de todos os pontos do país, de Norte a Sul, do litoral ao interior, passando pelas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
Cada aula transforma-se num espaço de debate onde diferentes experiências profissionais se cruzam, permitindo que problemas concretos sejam discutidos à luz da investigação científica e que muitas das soluções concebidas durante o curso encontrem aplicação direta nas instituições de origem dos estudantes.
Esta ligação entre formação, investigação e prática profissional prolonga-se para além das aulas, nomeadamente através de dois colóquios científicos anuais, dedicados à apresentação e discussão pública dos trabalhos finais.
O futuro constrói-se com profissionais preparados
Estou convicto de que os arquivos e as bibliotecas continuarão a desempenhar um papel essencial na sociedade. Mas essa relevância dependerá, cada vez mais, da capacidade das instituições para comunicar o seu valor, envolver as comunidades, responder aos desafios tecnológicos e demonstrar o impacto social do seu trabalho.
Preparar profissionais para esse futuro exige uma formação que vá além da dimensão técnica e que promova uma visão integrada da gestão da informação, da cultura e da educação.
Foi essa convicção que esteve na origem da Pós-Graduação em Promoção e Dinamização Cultural e Educativa de Arquivos e Bibliotecas da Autónoma Academy e é essa mesma convicção que continua a orientar cada edição. Acredito que investir na qualificação dos profissionais é investir no futuro dos arquivos, das bibliotecas e, em última análise, na capacidade da sociedade preservar, compreender e valorizar a sua memória coletiva.

